sábado, 4 de setembro de 2010

HISTÓRIAS DE VERDADE

Paulo Wainberg

Abrahão Finkelstein, proprietário da Mercatur Turismo, ex- presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul, é meu ídolo desde a adolescência.
Dono de um portentoso pé esquerdo, foi o terror de zagueiros e goleiros, entre eles o Henrique, pai do poeta e psicanalista Celso Gudfreind.
Ele atuava naquela região misteriosa, entre a meia e a ponta esquerda, misteriosa porque ele surgia do nada, onde antes não havia ninguém, de repente estava lá o Abrahão, colocando o avante na cara do gol ou, ele mesmo, definindo a jogada, colocando a bola bem ali, onde a coruja pia, no ângulo, indefensável.
Durante uma época em que joguei de ala, no futebol de salão, coube-me marcá-lo, resultando no apelido que ele me deu: asa negra. Porque, devido às minhas pernas compridas, ele não conseguia passar por mim.
Foi o que ele disse.
Eu digo diferente: ídolos existem para serem marcados.
Mas, não é pelas qualidades futebolísticas que o Abrahão Finkelstein é meu ídolo.
Ele é um cara excepcional, em todos os sentidos. Íntegro, sério, excelente empresário. E possuí um humor inigualável, surpreendente, surgido do nada, como se ele estivesse aparecendo por ali, entre a meia e a ponta esquerda.
Humor inteligente, sério e responsável. Absolutamente coerente com suas idéias, em resumo, muito me espelhei no Abrahão, em todos os aspectos de minha vida e, também, na literatura.
Durante muito tempo fui um admirador silencioso e, há alguns anos, revelei-me. Não desta forma despojada, mas contei a ele de minha idolatria.
Ele, é claro, não acreditou. É modesto, como os grandes costumam ser.
Por ser como ele é, com ele acontecem coisas insólitas, daquelas que entram na história, a ser contada por gerações.
Para terem uma idéia, foi personagem do Moacyr Scliar no romance – se não me engana a memória – o Exército de Um Homem Só. Ou no livro A Guerra do Bom Fim.
O que vou contar, agora, realmente aconteceu. E só poderia ter o Abrahão como protagonista, porque só pessoas como ele produzem momentos assim, antológicos.
Outubro de 2003. Estou jantando, tranquilamente, quando toca o telefone. Atendo:
– Paulinho, é o Abrahão. Por que não estás aqui na livraria?
– Como assim, Abrahão, por que eu devia estar aí?
– Ué, hoje é o lançamento do teu livro?
Ele se referia ao livro A Mãe Judia, o Gênio Cibernético e outras Histórias, que havia sido lançado em outubro de 2002!
No ano passado!!!!
Foi o que eu disse:
– Mas Abrahão, isso foi no ano passado!
E, então as coisas se esclareceram.
Naquela época os convites eram impressos, dá para imaginar? E eu havia enviado o convite para ele, no endereço do escritório.
Por alguma razão, perdeu-se o convite, que só foi achado no ano seguinte, pela faxineira, embaixo de um armário, ou entre documentos de arquivo, isto não sei bem.
A diligente limpadora olhou a data – outubro – e responsavelmente colocou a peça no interior da agenda do Abrahão, no dia marcado.
Ele, é claro, viu o convite e avisou sua esposa:
– Vamos ao lançamento do livro do Paulo.
E foram.
Os dois, na livraria, estranharam: não havia ninguém, nada indicava uma sessão de autógrafos. No início, ainda sem perceber o engano, ficaram chateados, poxa!, ninguém veio ao lançamento do livro do Paulo, nem ele veio!
Chamaram o gerente da livraria, com justa indignação e mostrando o convite:
– O que aconteceu? Já terminou a sessão de autógrafos? Estamos no horário, onde está o autor?
O gerente leu o convite e mostrou o ano:
– Foi no ano passado, meu amigo. O senhor está um pouco atrasado...
Aí revela-se a grandeza do Abrahão e seu notável humor. Percebendo o lance, não teve dúvidas, ligou para mim, fingindo brabeza, como é que eu não estava lá.?
O caso rendeu boas e continuadas gargalhadas. O Scliar contou a história, em sua coluna na Zero Hora.
Dias atrás, quando mandei o convite para o lançamento de Unhas, para o Abrahão, fui claro: o ano é 2010!!!!
Ele, claro, esteve lá e pude dar-lhe um grande, enorme abraço.
Olha, não tenho nenhuma vergonha de dizer: eu amo o Abrahão Finkelstein, meu ídolo permanente.

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