terça-feira, 20 de abril de 2010

PEQUENO CONTO DE OUTONO

Paulo Wainberg


Mil-folhas!


Acordou com um desejo alucinado de comer mil-folhas. Sentou na cama, desnorteado pelo sono.


Eram cinco da madrugada e ele precisava comer um mil-folhas.


Ligou para Jurema, atendeu um homem com voz de sono, intrigado quando pediu para falar com a Jurema, naquela hora. Escutou ruídos típicos de quem acorda, tosses leves, suspiros e gemidos... e ela atendeu:


– Quem é?


– Sou eu Jurema, o Alípio, lembra de mim?


– Alípio! Onde você anda? Aconteceu alguma coisa? Ligando a essa hora, são cinco da manhã!


– Jurema, você lembra de uma confeitaria onde a gente ia comer mil-folhas?


– Alípio, tu tá louco?


– Jurema, pelo amor de Deus, você lembra?


– Claro que lembro, Alípio, ficava ali na esquina da rua 5 com a Avenida 3!


– Será que ela ainda existe, Jurema? A gente ia lá de madrugada, lembra? Saía do motel e ia comer mil-folhas recém saído do forno...


– Lembro sim, Alípio, até que você não apareceu mais...


– Eu sei Jurema, nunca te expliquei o que aconteceu, mas foi grave, pode acreditar.


– Não tão grave assim, pois você ainda está vivo, canalha!


Ouviu a voz do homem, querendo saber quem era e o que estava acontecendo. Jurema mandou ele ficar quieto.


– Jurema, vamos lá agora, vamos comer mil-folhas juntos.


– Você está louco, Alípio, nunca mais comerei mil-folhas com você, nunca mais quero falar com você, nunca mais quero ver você!


– Jurema, ainda é possível, nós podemos recuperar o tempo perdido, os sonhos, projetos, nosso futuro.


– Alípio, eu sou casada e tenho três filhos. Adeus.


Ouviu o clique do telefone sendo desligado.Permaneceu com o fone no ouvido, o sinal de ocupado gritando o seu fracasso.


Então era isso, então era assim.


Evocou as manhãs nascendo, o ar doce e semi-frio do outono, o recheio do mil-folhas desmanchando em sua boca, o riso feliz de Jurema e os beijos trocados “para sentir o gosto de doce na boca do outro”.


Provavelmente a confeitaria não existe mais, tanto tempo passou, ele passou do tempo, e Jurema, como estaria sendo mãe de três filhos, o tempo também a castigara? Ela era feliz?


“Bobagem”, pensou, “quem se preocupa com felicidade, nesta altura da vida?”.


Por que mesmo abandonara Jurema? Ele gostava dela, disso tinha certeza. Mas um dia sumiu, não deixou recado e não atendeu aos chamados dela. Por que? Eles se amavam, tinham a vida diante deles, o futuro para comemorar, dez mil manhãs de outono para usufruir.


Jamais entendeu o medo que o consumia, diante de decisões definitivas que a vida lhe cobrava.


Se ele não tivesse sumido, com toda certeza a confeitaria onde comiam mil-folhas ainda existiria, os confeiteiros seriam os mesmos, a aguardá-los nas madrugadas outonais, uma tarefa agradável e obrigatória da profissão.


A confeitaria dos mil-folhas não ousaria fechar, caso ele não houvesse abandonado Jurema.


Nunca mais comeu mil-folhas.


Esquecera.


E agora, passado tanto tempo, desperta na madrugada de outono com o desejo, lembranças de Jurema, vontade de voltar ao passado.


E se, por milagre, a confeitaria ainda existir? Cinco da madrugada, o horário exato em que os primeiros mil-folhas saiam do forno. E se ele fosse até lá? Sim, se ele fosse até aquela esquina, olhasse para o prédio e sentisse o aroma de sempre, na madrugada de outono?


Levantou da cama, mas não se vestiu. Caminhou em direção a cozinha, sabendo que perdera seu tempo, que perdera seu espaço e que sua velocidade, há muito, não era a mesma.


“Uma equação de Einstein”, pensou, amargurado.


Abriu a porta da geladeira: uma garrafa de vodca pela metade e um pedaço de salame italiano.


Hesitou por segundos, cogitando ainda de ir em busca da confeitaria. E sucumbiu a si mesmo, pois não tinha energia nem vontade. Seria uma busca inútil, mesmo que a encontrasse.


Jurema não estaria com ele, não a Jurema que ele amara e abandonara.


Colocou a garrafa de vodca sobre a mesa e segurou, pela ponta, o um quarto de salame italiano restante, inadequadamente gelado.


Sentou, com um suspiro encheu o copo de vodca e, bebericando e mordiscando, consumiu ambos, a vodca e o salame.


Ligeiramente embriagado, voltou à cama vazia, puxou o cobertor e dormiu.

Um comentário:

Nara disse...

matha querida!
sempre que passo aqui me surpreendo com teu talento!
continua nos presenteando com essas delicias!
beijos amiga